segunda-feira, 14 de outubro de 2013

De um louco

Isto de convivermos num pequeno rectângulo com dez milhões de loucos é enlouquecedor

Ajuda celestial

Deus, a Imaculada Conceição e uma dúzia de santos estão a ponderar fazer uma vaquinha para ajudar Portugal no pagamento do empréstimo da troika. Dilema da minha alegria, não sei se hei-de abrir uma garrafa de champanhe ou rezar um terço.

sábado, 12 de outubro de 2013

Isto de ser português



(Somos tanto, e tão intensamente,
que quase não somos ninguém)


Isto de nascermos num país constantemente às cambalhotas e em vertiginosos rodopios é atordoante. Isto de crescermos num país onde nos exigem mil e uma licenças para podermos viver com a mínima dignidade é indigno. Isto de envelhecermos num país onde nos tiram a bengala e no-la trocam por uma palha é tirânico. Isto de aturarmos  governos que diariamente abrem em cada avenida, rua, praça e esquina uma filial do Inferno é infernal. Isto de aturarmos governos que nos demitem dos nossos sonhos é um pesadelo. Isto de suportarmos um presente pesando toneladas de desespero é insuportável. Isto de nos vedarem permanentemente todos os caminhos em direcção ao futuro é desumano. Isto de vivermos num país onde nos foi penhorada a alegria é muitíssimo triste.
Isto de ser português não é para qualquer um: é necessário ser-se corajoso, forte, indolente, ter-se arcabouço, é necessário ser-se feito da mesma carne de que são feitos os mártires.
Isto de ser português é para poucos, muito poucos: é necessário ter-se amor à camisola, conhecer todos os cantos à dor.
Isto de ser português é não é nada fácil: é necessário ter-se em dia todos os tipos de vacinas, é necessário ter-se pernas e pulmões que aguentem diariamente maratonas  que ultrapassam em muito os quarenta e um quilómetros de suor e lágrimas.  
Isto de ser português é passar em todas as horas as passas do Algarve, é comer às refeições o diabólico pão que o diabo amassou e beber o vinho cujas uvas o irmão dele pisou, é viver com duas cordas ao pescoço, é quebrar ininterruptamente o lápis de quem insistentemente quer riscar-nos do mapa, é viver desarmado até aos dentes, é estar irremediavelmente feito ao bife.
Isto de ser português é tão custoso, é tão aflitivo, santo Deus!
Dentre os mais de seis biliões de seres humanos que por aqui andam, somente 0,14% destes tem envergadura para carregar este pesadíssimo fardo que é isto de ser português.  
Isto de ser português é árduo, extenuante, degenerativo, é não poder fugir.
Isto de ser português é duro, complicado, tenebroso, atroz, é anátema e calvário.
Isto de ser português é nefasto, doloroso e medonho, mas sobretudo é aterrador, perigoso, horrendo, é angústia e prisão.
Isto de ser português não é pêra doce, é um fruto amarguíssimo e duríssimo de roer.
Isto de ser português é cumprir uma pena perpétua de existência forçada.
Isto de ser português é morrer todos os dias por sê-lo e fatalmente todos os dias reencarnar no próprio corpo.
Isto de ser português é querer ser só e somente português e nada mais além disso.
Isto de ser português é o cabo das tormentas, é ter de aguentar o paroxismo de todas estas e outras dores.
Isto de ser português é ter esta sentença a arder para toda a vida dentro do sangue.
Isto de ser português é levar, todos os dias, durante toda uma vivência, uma escaqueirante porrada com tudo isto.
Isto de ser português… Isto de ser português é não ter outra escolha senão esta.



dinismoura

(Publicado originalmente no no sítio bomdia.lu)

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

As injustiças do Comité do Nobel

Este ano pensei que o Nobel da Literatura ia mesmo para o José Rodrigues dos Santos. Azar do caraças! Foi por um triz... O Lobo Antunes ligou-me há pouco e disse-me que teve toda a manhã a fazer figas pelo Zé. Até ele, pá! Foi mais um valente Munro que a literatura portuguesa levou no estômago. Mas nós somos rijos, temos estômago para suportar tais e tamanhas decepções. O galardão foi para uma tal Alice não sei quê que mora num país maravilhoso. Para o ano há mais. 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Génesis Apócrifo (excerto)


“Mas que pouca vergonha vem a ser esta!? Parem lá com isso imediatamente! O Éden não é nenhum antro de devassidão, seus malcriados. Um dia destes chateio-me a sério e ponho-os aos dois no olho da rua".


É por este motivo, e por muitos outros que o Génesis da Vulgata preferiu omitir, que Deus é considerado o primeiro empata da história. 

Coisas do arco do Nobel

Batman foi nomeado para o Nobel da Paz 2013. Ah, e parece que o Putin também. À academia sueca de quando em quando dá-lhe para estas coisas. Que ganhe o mais pacificador. 

Por falar em electricidade

Apanhamos com cada choque neste país. Há uns anitos, com o governo de Sócrates, apanhámos um choque tecnológico, hoje, o nosso primeiro-ministro, um dos principais electricistas da crise, descarregou  numa conferência de imprensa que  que as novas medidas previstas no Orçamento do Estado para 2014 podem  gerar um  choque de expectativas. Um dia destes morremos todos electrocutados.