O seleccionador nacional
Passos Coelho acaba de divulgar a lista de convocados para o Torneio
Escaqueirar Portugal. O técnico português desta vez decidiu deixar de fora
Vítor Gaspar e Miguel Relvas, uma opção táctica que, segundo o próprio," não vai causar qualquer surpresa no adversário,
no entanto vai certamente injectar confiança no balneário, e isso neste momento
é o mais importante”, disse confiante. “Estamos plenamente convictos de que
mais uma vez vamos trazer para casa este prestigioso e prestigiante troféu”,
concluiu.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Carta à revista Maria
Amiga Maria, tenho 55 anos e sempre gozei de perfeita saúde. Saio ao meu pai, que sempre foi rijo como um pêro e já vai nos 98. Sou uma pessoa que desde os meus catorze anos gosta de beber uma boa pinga. Adoro cerveja e vinhaça, mas a minha perdição é a aguardente. Acontece que há uns meses atrás comecei a sentir umas cacetadas no fígado. Deve ser por causa da chocolatada, pensei. É verdade que desde há tempos tenho abusado um bocado na pinga, mas eu atirei logo para o chocolate, que até gosto de comer de vez em quando, mas a minha mulher não parava de insistir no álcool. Olhe, tanto insistiu, tanto insistiu, que acabou por convencer-me, e lá fui fazer umas análises. Fui ao médico na semana passada: a coisa acusou mesmo álcool a mais. O homem proibiu-me de beber. Fiquei doente, eu que já não adoecia desde que andei na tropa.
Entretanto, e é por isso que estou a escrever-lhe, surgiu-me uma ideia. Ela aqui vai. E se eu fizer um transplante de fígado, hein? Será que poderei continuar a beber até aos 100? Melhor ainda será, também me lembrou desta, continuar com este fígado e colocar um novo no lugar dos rins. Com dois fígados acho que posso continuar a beber até aos 120. O que acha? Preciso urgentemente de uma resposta. Faça lá o jeito o mais rápido possível, pois, por andar a beber tanta água nestes últimos dias, estou a ficar com as articulações enferrujadas. Desta maneira, já disse à minha mulher, nem ao médico conseguirei ir. Ajude-me, peço-lhe, amiga Maria.
Jesualdo Jesus
Vila Nova de Carrazeda de Cónegos
Ajuda celestial
Deus, a Imaculada Conceição e uma dúzia de santos estão a ponderar fazer uma vaquinha para ajudar Portugal no pagamento do empréstimo da troika. Dilema da minha alegria, não sei se hei-de abrir uma garrafa de champanhe ou rezar um terço.
sábado, 12 de outubro de 2013
Isto de ser português
(Somos tanto,
e tão intensamente,
que quase
não somos ninguém)
Isto
de nascermos num país constantemente às cambalhotas e em vertiginosos rodopios é
atordoante. Isto de crescermos num país onde nos exigem mil e uma licenças para
podermos viver com a mínima dignidade é indigno. Isto de envelhecermos num país
onde nos tiram a bengala e no-la trocam por uma palha é tirânico. Isto de
aturarmos governos que diariamente abrem
em cada avenida, rua, praça e esquina uma filial do Inferno é infernal. Isto de
aturarmos governos que nos demitem dos nossos sonhos é um pesadelo. Isto de suportarmos
um presente pesando toneladas de desespero é insuportável. Isto de nos vedarem permanentemente
todos os caminhos em direcção ao futuro é desumano. Isto de vivermos num país
onde nos foi penhorada a alegria é muitíssimo triste.
Isto
de ser português não é para qualquer um: é necessário ser-se corajoso, forte, indolente,
ter-se arcabouço, é necessário ser-se feito da mesma carne de que são feitos os
mártires.
Isto
de ser português é para poucos, muito poucos: é necessário ter-se amor à
camisola, conhecer todos os cantos à dor.
Isto
de ser português é não é nada fácil: é necessário ter-se em dia todos os tipos
de vacinas, é necessário ter-se pernas e pulmões que aguentem diariamente
maratonas que ultrapassam em muito os
quarenta e um quilómetros de suor e lágrimas.
Isto
de ser português é passar em todas as horas as passas do Algarve, é comer às refeições
o diabólico pão que o diabo amassou e beber o vinho cujas uvas o irmão dele
pisou, é viver com duas cordas ao pescoço, é quebrar ininterruptamente o lápis
de quem insistentemente quer riscar-nos do mapa, é viver desarmado até aos
dentes, é estar irremediavelmente feito ao bife.
Isto
de ser português é tão custoso, é tão aflitivo, santo Deus!
Dentre
os mais de seis biliões de seres humanos que por aqui andam, somente 0,14%
destes tem envergadura para carregar este pesadíssimo fardo que é isto de ser
português.
Isto
de ser português é árduo, extenuante, degenerativo, é não poder fugir.
Isto
de ser português é duro, complicado, tenebroso, atroz, é anátema e calvário.
Isto
de ser português é nefasto, doloroso e medonho, mas sobretudo é aterrador, perigoso,
horrendo, é angústia e prisão.
Isto
de ser português não é pêra doce, é um fruto amarguíssimo e duríssimo de roer.
Isto
de ser português é cumprir uma pena perpétua de existência forçada.
Isto
de ser português é morrer todos os dias por sê-lo e fatalmente todos os dias
reencarnar no próprio corpo.
Isto
de ser português é querer ser só e somente português e nada mais além disso.
Isto
de ser português é o cabo das tormentas, é ter de aguentar o paroxismo de todas
estas e outras dores.
Isto
de ser português é ter esta sentença a arder para toda a vida dentro do sangue.
Isto
de ser português é levar, todos os dias, durante toda uma vivência, uma
escaqueirante porrada com tudo isto.
Isto
de ser português… Isto de ser português é não ter outra escolha senão esta.
dinismoura
(Publicado originalmente no no sítio bomdia.lu)
(Publicado originalmente no no sítio bomdia.lu)
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