domingo, 19 de maio de 2013

Regras de conduta


A um indignado da minha estirpe jamais se pergunta “o que tens feito”. Muito francamente, considero tal interpelação uma ofensa. Perguntem-me preferencialmente “o que tens desfeito”. À primeira questão recuso-me determinantemente a responder; à segunda, creiam-me, responderei com o mor agrado e a mais profunda obsequiosidade. 
Como diz esse eminente filósofo chamado Povo: " o respeitinho é muito lindo e eu gosto". 

Quando a mediocridade já enfastia



Há indivíduos que debitam tiradas que, na minha franca e lúcida opinião, vão certamente buscá-las ao fundo de latas de diluente ou a embalagens de aspirinas contrafaccionadas. Depois ainda se admiram que nós, que as escutamos ou lemos, suportamos e digerimos, andemos constantemente constipados, com carunchentas artroses, dores menstruais no aparelho auditivo e o mal da couve-flor. Com tamanhas afrontas ao intelecto e respectivas filiais, estavam à espera de quê, hein? De uma frondosa procissão de domingo de Ramos ou de um bacalhau à Agostinho da Motoreta? Enxerguem-se, meus caros, e parem de açoitar a inteligência de quem a tem com a chibata da vossa ignorância. De filosofismos anda a filosofia empanturrada. Dediquem-se a propósitos mais proveitosos e levantadores, seus escarradores de despropósitos. O mundo, a vida e os seus condóminos ficar-lhes-ão imensamente gratos. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A vida



Uns apelidam-na tão-somente assim. Outros há, mais eloquentes talvez, que preferem designá-la de puta da vida. Eu, que não sou de todo dado a trivialidades, chamo-a apenas de puta, em toda a extensão da palavra.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Confidência


Desperdiçador de dádivas, até agora tenho desperdiçado a minha vida nos desperdícios da rotina, nos desperdícios do banal, do mundano, do quotidiano. – Isto é desperdiçar a vida. Ao mesmo tempo, a vida, pródiga desperdiçadora, tem-me desperdiçado, supremo desdém,  severa e escarnecidamente. Talvez seja este o prémio a pagar por aquilo que tenho feito: ter-me tornado desperdício da própria vida. 

Centelha


Deus devia conceder-nos duas vidas: uma para a vivermos, a outra para lermos todos os grandes livros.     (dinismoura) 

Hélas seguido de… nada de especial



Quando criança descobri que não tinha nenhuma vocação para adulto, hoje, adulto, acabo de descobrir que não tenho vocação alguma para a vida. Entretanto, ocorre-me perguntar: e a vida, acaso terá vocação para alguma coisa? 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Aos interessados em emigrar




Qual Suíça, qual Luxemburgo, qual Angola, qual Brasil, qual não sei quê. Neste momento o melhor país como destino de emigração é o Irão. Quando não, reparem. Soube recentemente que um pedaço de urânio oriundo das minas da Urgeiriça decidiu partir rumo a esse território outrora denominado Pérsia. Pois fiquem sabendo que para alcançar o patamar que a grande maioria dos emigrantes leva quarenta anos a conseguir, uma vida portanto, bastaram-lhe dois meses. Regressou há poucos dias, enriquecido. Em dois meses um pedaço de urânio português saiu enriquecido do Irão. É deveras notável. Ao que pude apurar, a sua curta estadia foi dividida entre o Centro de Física Atómica da Universidade de Teerão e uma central nuclear localizada no sul do mesmo país.
Posto isto, por que esperam? Comprem as passagens, façam as malas e sem mais delongas rumem em direcção a esse eldorado do Médio Oriente.