segunda-feira, 6 de maio de 2013

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Portugal já não faz parte da Europa, já não faz parte do Euro, já não faz parte da realidade. 
Portugal ora não mais é que a anémica e envergonhada miragem de uma porção de lama sacudida para a extremidade mais ocidental do Velho Continente, este um torrão à mercê de insondáveis desígnios. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Carta a Rui Zink


Caro colega e comensal neste banquete de açorda insulsa que é a vida,

Tomei a liberdade de dirigir-lhe esta curta missiva porque, primeiro, a minha lauta ignorância não me permite alcançar sequer os arrabaldes da metafísica, domínio esse que é da sua alçada; segundo porque tenho para mim convictamente assente que o seu trato com os assuntos surreais e transcendestes lhe é congénito, fácil e desembaraçado. Bem sei que o propósito, e verá já, é supinamente despropositado, mas creia-me que não é de propósito.
Saiba pois que ultimamente tem adentrado o meu intelecto um desassossego daqueles que esboroam os neurónios e destabilizam a jurisdição do epigástrio. Um suplício sem precedentes em toda a filosofia, asseguro-lhe.
Sucede que uma questão visceralmente ontológica, imanente e transcendente impede o decurso normal da minha existência: Porquê? Ah, a imundice desta questão, a sua constante presença, sombra e reflexo desconserta-me todos os mecanismos da alma. Sinto molas a saltar, parafusos a quebrar, juntas a ceder. Porquê? Não logro uma resposta, não ouso aventar uma hipótese. Porquê? Este nó cego cega-me o fluir das cogitações. Porquê? Este dissílabo monocordiza a polifonia do brotar da minha poesia. Porquê? Porquê? Detrás dos muros desta questão antevejo a loucura. Ei-la, ali, zombeirona, a ridiculizar-me. Note o seu escarnecedor semblante! Que cólera! Que cólera! Ajude-me, caramba!
Caro colega, ajude-me, reitero o rogo. Ponha término a esta afronta, a esta sucessão de noites insones e despertares sonambúlicos. Ajude-me, imploro-lhe. Só uma alma omnisciente como a sua pode valer-me.

Submerso no lamaçal de tudo isto, mui respeitosamente e atarantado subscrevo-me,
dinismoura. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Vicissitudes de uma sociedade alienada


Não há muitos dias, um periódico alemão publicou uma sondagem indicando que 21% dos alemães com idades compreendidas entre os 18 e 29 anos não sabem que Auschwitz - esse terrífico pecado da humanidade- foi um campo de extermínio.  Não raro, estas  notícias são bastas vezes remetidas para os recônditos das páginas dos jornais e revistas, quando, precisamente,  deveriam surgir, em caracteres garrafais, berrantes e apelativos, nas manchetes dos mesmos. Resulta curioso ver como este significativíssimo quinhão de jovens ignora as atrocidades perpetradas, num passado não muito distante, pelos seus avoengos. Quando me deparei com isto, de imediato me ocorreu uma reflexão  de George Santayana, que diz, e passo a citar: "aqueles que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo". Assertivas, convenientes, acertadas, as palavras do pensador americano.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Drageias para depressões sazonais

Primavera no Luxemburgo


Neste dia de outono invernal, neste país onde há mais feriados que dias primaveris, que tal pôr a tocar nas grafonolas das nossas sensações, alto e bom som, o “Verão” de Glazunov, para desmelancolizar? 

sábado, 27 de abril de 2013

Conselho


Caríssimos políticos e respectivo entourage, como hinduísta devoto, neste momento penoso só tenho um conselho a dar-lhes: ajoelhem-se, unam as mãozinhas e façam como os budistas: rezem um pai-nosso e um alqueire de ave-marias a Alá. O judaísmo garante que este singelo procedimento taoista faz milagres.

sexta-feira, 26 de abril de 2013


Grafitis (IV)

Portugal     metafisicamente    
está a tornar-se pouco a pouco
 uma anarquia paranoicamente ingovernável


Grafitis (III)

Portugal ultimamente
 é uma nação que não tem existido
– tem acontecido